30.1.12

não escrevo histórias; escrevo memórias

Sair à rua e encontrar o céu escuro. O sol por nascer. Todas as madrugadas.
Tantos pensamentos a atropelarem-se e a baralharem-me, quando o dia ainda não está aí sequer.
E como o tempo está ainda para vir, mais cedo, ou dolorosamente mais tarde, o meu coração vai-se perdendo dentro dele. Vai-se ressentindo de ti. Porque já não te sente.
E vai ignorando as horas, os minutos, os segundos e até as fracções de segundo que correm e correm e correm, tentando sempre apanhá-lo na curva. E eu evito andar com o relógio que me ofereceste no pulso. E para lidar com as pressas e as fugidas, escrevo. Não escrevo histórias, escrevo memórias.
Memórias de ti. Porque me fazes falta. Ao nascer de todos os santos dias. 
Porque, feliz, só estás lá em memórias. Porque, hoje, agora, não estás. Porque só estás lá quando não preciso de afago, de calor ou de carinho algum. Faltas-me ao acordar dos sonhos pesados. Faltas-me no preciso instante em que me encontro na cama e o sol reluzente me desperta. A luz natural teima em estar presente, e tu faltas-me. Sempre que te necessito. Sempre que te quero.
Faltas-me quando a imagem dos nossos corpos transformados num só me invade. Faltas-me quando desejo a ternura e a quentura do teu tão próprio e único ser. Porque, intemporalmente, tu és tu e quando só a carência me faz companhia nas noites sós é por ti que ela chama. E é o teu nome que pisca nos meus pensamentos. O nome que eu quero gritar até gastar, numa voz doce e firme, pela janela do meu quarto. Aquele quarto que para mim nunca foi um lar e que agora está mais do que desabitado, mas que para nós sempre foi um refúgio de todo o mundo. Usufruímos dele, só nós. Dele e da sua escuridão extrema. Servimo-nos de desejos súbitos e de vontades fortes. O quarto que grava o teu cheiro nos lençóis de uma noite para a seguinte, e que grava, sem tempo e sem desgaste, as nossas fotografias nas paredes brancas. E preserva tudo. Preserva os momentos em que nos possuímos e em que tínhamos uma mão cheia um do outro. Momentos em que podíamos afirmar de boca e de coração cheios que pertencíamos um ao outro. Momentos? Ou serão memórias? Memórias que restam e que me trazem os medos de lá ir sozinha. E, por sozinha, quero dizer, sem ti.
Faltas-me. Hoje, agora, uma vez mais. E em todas as horas em que me escondo do tempo por não estarmos com ele.
...
Voltar à realidade e deixar as memórias no passeio. Correr sem rumo, dispersar do mundo escuro e descoberto de alegria. Entrar apressadamente no comboio lento, antigo, ruidoso e sentir o aroma a tabaco que paira no ar. E oh, sentir saudade e falta. Essa está sempre lá. Como o belo Tejo.

Sem comentários:

Enviar um comentário