30.5.11

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Ontem foi dia de correr para a janela, abri-la com segurança, abrir também os braços com determinação e gritar de alívio por nunca mais ter tido a necessidade de te escrever, de te lembrar ou de olhar para o teu retrato ríspido e pálido. Gostaria, igualmente, de poder pavonear-me pelos becos e esquinas do coração da minha cidade, gritando que o verbo amar(-te) já só se conjuga no pretérito perfeito. Amei-te sim! Amei-te inevitavelmente, incontornavelmente. Amei-te com tudo e com nada, com o pouco e com o muito que tinha e que não tinha. Amei-te em circunstâncias menores, amei-te quando nos senti frágeis no reflexo dos meus olhos tristes, amei-te submersa em pensamentos cruéis em relação a nós, na minha alma inundada de gestos teus inconsoláveis. Amei-te na minha boca seca e nas minhas palavras ásperas. Amei-te mesmo quando deixaste ruínas inapagáveis dentro do meu corpo, amei-te mesmo quando rejeitaste as minhas lágrimas e minimizaste as minhas mágoas. Amei-te na intemporalidade do ser e do próprio amor. Amei-te e esse amor foi o meu mais fundo fracasso! Amei-te mais do que podia, e é aí que está a ironia. Vivi um conto de fadas num mundo de papel, onde nós éramos os protagonistas do faz de conta… tracei uma linha, outra, outra e outra, e sem me aperceber já tinha criado um labirinto de caminhos nossos cobertos de pétalas cor-de-rosa e agora… só gostaria de ter sido fraca, assim como tu, espontaneamente, sem pensar. Gostaria de ter sido mais do que um mero capricho teu. Gostaria de ter sido mais do que uma fotografia ou uma declaração de amor que penduraste num placar de cortiça e que retiraste quando o capricho se inverteu e a poção se verteu e, aí, colocaste outro. Gostaria de ter sido mais do que um livro da nossa bonita e verosímil história - pensava eu, iludida com a felicidade da primeira paixão - encostado ao canto da mesa-de-cabeceira do quarto de hóspedes: abandonado, esgotado, espremido e vulnerável. Gostaria de ter sido mais do que uma carta escrita em pergaminho e com uma pena, já tão antiga… um pouco mais do que um diminuto dia da tua vida que rasuraste no calendário depois de terminado e que nunca mais voltaste atrás para recordar… um pouco mais do que a perda da inocência conjunta no “calor” do momento de uma tarde de Janeiro, (im)previsível, errada, prematura, ainda que sem arrependimentos posteriores… um pouco mais do que a vingança por um passado que te marcou… um pouco mais do que um passado encrostado teu que fui eu.

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