17.8.11

demon

Reacções: 
Um dia conto-te a história de uma vida. Verás como todos os dias me encontro sozinha entre ruas de amargura e escadas de secura. Sequências de escadas, que já não sei como subir. Verás como recusaste de forma cega a harmonia que teria evitado todas as histórias que se seguiram naquela noite. Verás como terias evitado os remorsos que agora te percorrem vezes sem fim. Naquela noite fria, em que te tratei com dureza e tu vieste atrás de mim para me agarrar. Que te empurrei para lá das portas que fazias questão de ultrapassar, para me observares, agarrares e torturares. Naquele instante memorável em que me corrompeste, sem limites. Naquela noite inesquecível em que me transformaste. Por instantes, transformaste-me num demónio e viste em mim uma faceta que nunca ninguém antes vira: um lado forte e livre de cobardias comuns. Confrontei-te, e tu não recuaste. Não quiseste parar. Surpreendi-te: fui mais forte e não houve coesão. Fechei as portas e tranquei-me dentro daquele cubículo. O meu coração batia a um ritmo aceleradíssimo, a minha face estava lavada em lágrimas, os meus braços fracos, e, pela primeira vez na minha vida, senti medo. Senti receio que voltasses. Que voltasses a entrar por aquela porta a fim de me atormentar. Temi voltar a sentir aquela perseguição para o resto dos meus dias. Noites posteriores, frias e sem fim. Gritei e supliquei. Ninguém me acudiu. Agarrei-me às portas, cheia de raiva. Passei a noite numa ansiedade constante, de olhos semicerrados, mas atenta. E daí em diante, não houve nem mais uma noite em que tenha pregado olho. A minha alma estava inundada de mágoa e tristeza para sempre. A minha cabeça dizia-me que não, que eu não tinha mais forças. Dizia-me para me deixar de silêncios. Dizia-me para me libertar, mas não consegui ser fraca. Limitei-me a permanecer calada. Não houve mais nenhum dia com a claridade natural da atmosfera: daí em diante tudo me pareceu cinzento. Aquele cubículo pareceu-me a partir dessa noite tão escuro, e todas as esquinas lá fora mais escuras ainda. Transformaste-me num demónio, graças a ti serei eternamente um demónio.


Setembro de 2010

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