20.11.11

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Sabes o que mais custa? Saber que só corres atrás de mim e das minhas lamurias no preciso instante em que me vês a deambular pela nossa velha rua cabisbaixa, limpando as lágrimas dos olhos borrados de maquilhagem negra. Esses olhos que já não conhecem a secura, tendo a vida se encarregado de lhes dar a conhecer um pouco de todas as amarguras. E também eu me tornei amarga para com ela. Contudo, sem nunca cruzar os braços. Vingando-me da vida (não é, afinal de contas, esse o grande desafio?). Sem nunca deixar a minha Alma morrer, assim como tu, meu amor, nos deixaste morrer a nós. Como tu, meu amor, cruzaste os braços à nossa existência. Deixaste-nos queimar assim como quem deixa queimar um prato de forno para um grande jantar e em seguida desiste de tentar outra vez, correndo para comprar qualquer coisa rápida. Deixaste-nos murchar assim como quem se desleixa e deixa de regar as mais belas flores do seu jardim. Mas eu continuo aqui, a fazer para que aquilo ainda restou de nós se eleve e se antecipe à temida morte, a declarar-me com palavras e gestos bonitos, para que os sentimentos não se desvaneçam e a tocar-te com minúcia, para que a paixão ainda se faça sentir. E voltando às Almas, te garanto que não nos deixarei morrer nem mais uma vez e que lutarei para não me serem apontados dedos alheios e para não ser conhecida como uma desistente.
Quando me parece necessário, eu mudo apenas de espaços, transfiro-me para um corpo diferente, para um quarto diferente, para uma casa diferente, com pessoas e rotinas diferentes. Contudo, sem nunca mudar de canto, de refúgio - por mais ausente que me encontre ou por mais indiferente que me sinta, é aqui que volto sempre. Somente as palavras me libertam de um dia-a-dia esgotante e sem nenhum raio de sol. Ou de noites seguidas, sem pregar olho, passadas sem a doçura e o consolo das tuas palavras. Sendo assim, vejo-me sentada à janela, resistindo à tentação de fumar um cigarro e desse fumo entrar pelos meus próprios olhos, cegando-me por momentos, a escrevinhar qualquer coisa no meu bloco Moleskine. A inventar uma qualquer história em que amantes vivem eternamente lado a lado, sem nunca renegarem o seu amor, a sua loucura, o seu desejo. Mas tu ignoras as minhas histórias fictícias, e mesmo as que não o são. Ignoras as minhas palavras - e isso só significa que me ignoras também, que me rejeitas na íntegra. Porque eu sou uma maresia de palavras. Já só elas me restam, sendo as únicas me têm acompanhado, mesmo quando tudo o resto abandona a minha Alma, mesmo quando as mudanças acontecem. Ignoras também o facto de eu querer viver tudo à pressa e de forma intensa, e ficas fechado no quarto a chorar as tuas desilusões por baixo de três ou quatro cobertores, sempre em silêncio. A chorar o facto de viveres sozinho e sem estímulo algum. E nunca me fazes chegar a tua mágoa. Só não sabes que eu a sinto. Só não sabes que eu a sinto logo, assim como não sabias que já nos amávamos e que os nossos corações já se tinham entrelaçado um no outro, ainda muito antes de criarmos algum momento a dois. Vives nessa ingenuidade constante e insistes em fechar os olhos quando a vida te prega uma rasteira. Vives apenas recostado no teu sofá, enquanto catástrofes acontecem pelo Mundo todo e pessoas inocentes morrem de dor e de melancolia, todos os dias. E eu acredito que (sobre)vivo, e que (sobre)vivi até este ponto, para te abrir os olhos para a vida e te mostrar que a dor existe, mesmo quando os que nos rodeiam o negam. Para te acariciar o cabelo quando te sentires inseguro e com a auto-estima extremamente baixa. Para te proporcionar tempos de prazer e de tristeza profunda disfarçada, de tempos a tempos, de alegria ou de satisfação. E é por isso que, mesmo que os espaços se alterem, eu percorro dezenas de quilómetros ao acordar, para dar contigo sentado ao lado de um falso amigo. E é por isso que, mesmo que as falas se transformem, o mesmo será sempre dito ao deitar. E é por isso que, mesmo que tudo mude, nunca tudo há-de mudar.
E todos os dias volto a afirmar que preciso de ti. E quanto mais te dou, mais sinto que te devo.


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